domingo, 27 de maio de 2012

Sobre a venda do QG da PMERJ II



O Jornal O GLOBO de hoje, domingo, dia 27 de maio, em extensa e detalhada matéria assinada pela jornalista Vera Araújo (CADERNO RIO, pág.19), finalmente esclarece os pontos até então obscuros sobre a venda do QG da PMERJ e indica qual será a destinação do dinheiro: será reaplicado na modernização da própria PMERJ, como detalha a matéria. Ora bem, não há mais como desespatifar um ovo espatifado nem desderramar o leite derramado, a venda do QG da PMERJ, salvo algum entrave jurídico-judicial, são favas contadas. Lamento, porém, que um dos intentos seja o de informatizar o Hospital Central da corporação e não mais que isso: a construção de um novo hospital, que, claro, precisa ser informatizado, tanto como urge modernizá-lo no seu todo. Quem frequenta por necessidade imperiosa o HCPM-Rio sabe do que reclamo, em especial da inadequação do espaço físico ao seu propósito de bem atender a milhares de pessoas, diariamente, o que os profissionais de saúde fazem como louvável sacerdócio ante as gigantescas carências que assolam como um todo o sistema de saúde da PMERJ, para o qual a tropa contribui com parte do seu salário, e dizem que o estado contribui com outra parte para dar conta do volumoso atendimento médico-hospitalar. É possível...
Mas, como eu disse, não há como desderramar o leite ou desespatifar o ovo, o QG da PMERJ será demolido e vendido, assim como outros quartéis históricos da corporação foram ou serão igualmente alienados. E no contexto da esclarecedora matéria jornalística emerge a explicação da frase que mais causou polêmica, talvez mais que a decisão da venda dos quartéis em si, eis que proferida pelo governante em pleno Carnaval: “vamos acabar com o conceito de aquartelamento na PMERJ”. Ora, muitos significados se encerram na frase. Deixá-la no ar, sem maiores explicações, representou uma espécie de sandice, maldade típica da criança que oculta seu pirulito para não ceder ao irmão uma só lambida. Dissesse o governante que o objetivo de mudar o conceito de aquartelamento se resumia ao que a jornalista ora expõe, não haveria tanta apreensão na tropa da PMERJ. Porque a nova obra a ser feita com o dinheiro arrecadado (agora sim, sabemos que os 336.000.000,00 serão aplicados em obras físicas e tecnologia para tornar mais eficiente a PMERJ no seu labor), segundo esclarece a jornalista, destina-se a uma política de proximidade pela construção de um aquartelamento sem muros, para que os destinatários dos serviços policiais militares não mais se sintam inibidos ante a necessidade de adentrar quartéis para cuidar de seus lídimos interesses que digam respeito à corporação. E a política de proximidade alegada pela jornalista não é invencionice nem dos dirigentes da corporação nem de ninguém, é modelo consagrado no mundo afora por meio de muitos trabalhos acadêmicos confirmando o sucesso dessa prática policial.
A política de proximidade, portanto, é vencedora tese acadêmica, e ainda percorre o mundo por meio do empenho de muitos pesquisadores das relações polícia-público. Aqui mesmo no Brasil já houve muitas dissertações de mestrado e doutorado sobre o tema, e podemos dizer que a Delegacia Legal nasceu para atender a esse princípio de proximidade policial, inclusive pelo formato do prédio e pela terceirização do atendimento por pessoas não policiais. Pois o primeiro contato do cidadão com o serviço policial deve ser, efetivamente, sem traumas. Daí ser indispensável a modernização da estrutura para atender aos seus fins, seguindo a máxima arquitetural de Louis Sullivan (1988) de que “o formato segue a função”. Em outras palavras, é cediço na Teoria da Administração que a estrutura deva atender aos objetivos traçados. Hoje, considerando-se as incertezas e as turbulências ambientais, a Teoria Contingencial da Administração vai ao extremo de admitir que, em vez de estruturas rígidas, as empresas (públicas ou privadas) devem se apoiar bem mais em desenhos organizacionais, de modo a flexibilizar estruturas em vista de objetivos dinâmicos a serem alcançados otimamente, gerando deste modo os resultados esperados.
Em vista da matéria da ilustre jornalista Vera Araújo, que deveria ser difundida para toda a oficialidade e discutida sobre a ótica por ela abordada, devo dizer que me rendo aos argumentos, ressalvando, porém, que o dinheiro, hoje, seria exponencialmente bem-vindo se investido in totum no sistema médico-hospitalar da PMERJ, área estratégica da corporação, pois ali são cuidadas as famílias policiais militares e eles próprios, de modo que o objetivo da mens sana in corpore sano seja tornado realidade, o que refletirá positivamente na ponta da linha do contato entre a PM e o povo. Não que a aplicação do dinheiro como está traçada seja questionável. É também necessário modernizar a operacionalidade corporativa. Mas a minha ótica, que não é minha, é a de que qualquer estrutura só vinga se cuidada por pessoas realizando tarefas com vistas a fins adrede traçados como objetivos. E se essas pessoas não atenderem a um padrão motivacional compatível com o seu labor cotidiano, em especial, se não forem permanentemente incentivadas mediante todas as técnicas disponíveis e por meio de um tratamento condigno que lhes assegure coletivamente o que denominamos “moral da tropa”, nenhum aquartelamento sem muro propiciará a almejada “proximidade policial”, eis que será bloqueada por um ente invisível denominado desmotivação. Isto no mínimo produzirá o desleixo funcional ou a truculência no trato entre o policial e o cidadão, deste modo prejudicando o alcance dos objetivos mais gerais e voltados para a prestação de um ótimo serviço policial à população.

sábado, 26 de maio de 2012

A REAÇÃO



A propósito da matéria, devo indagar:


1) Qual é a metragem quadrada daquela área?

2) Qual o valor de mercado do metro quadrado edificado naquele local?

3) Se efetuada a venda, qual será a destinação do dinheiro (R$ 336.000.000,00)? Quanto dele será empregado para tirar o sistema hospitalar da PMERJ da semifalência em instalações, equipamentos e medicamentos?

4) Que significa o insistente dizer do governante de que quer "acabar com o conceito de aquartelamento" na PMERJ? Que autoridade histórica e moral possui ele para questionar nesses termos uma instituição bicentenária que tem no seu Quartel-General ("aquartelamento") a história pátria materializada?

5) Onde está a oficialidade da PMERJ, que não se manifesta coletivamente, nem que seja para concordar com o absurdo que se aproxima: a implosão da história de uma instituição que jorrou e ainda jorra o seu sangue na defesa da nação e dos cidadãos contra inimigos externos e contra uma criminalidade absurdamente crescente?

6) Que gaveta é essa que trancou o juramento de honra da tropa da PMERJ? Até quando ele ficará esquecido? Não vão abrir a gaveta?...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sobre a destruição do QG da PMERJ









Li, certa vez, numa revista de ciência, que uma corrente da física quântica crê piamente ser a pedra um ente pensante. Supondo que seja verdade, e se ela, a pedra, realmente pensa, então ela sabe o que ocorre à sua volta. Mais ainda, ela sabe existir, sabe que finalidade cumpre no Universo, quiçá até mais que nós, os humanos. O fundamento da afirmação é o de que tudo é átomo. Por conseguinte, tanto faz que estejamos diante de moléculas orgânicas ou inorgânicas, já que a natureza é formada por moléculas, e estas, por átomos. Então, tudo que existe no Universo pensa: minerais, vegetais e animais, caindo por terra a certeza de que o ser humano é o único racional existente no mundo. Mas, na dúvida (não é fácil admitir que uma pedra pense), vamos insistir no argumento a partir da ficção. Deste modo, tanto faz que eu creia ser ou não ser a pedra um ente racional. Então minha premissa é a de que a pedra raciocina e guarda na memória o que percebe. E, neste ponto, generalizando a loucura, devo afirmar que tijolo pensa, tal como deve pensar o osso que sobra do ser humano após a morte. E se, por acaso, o corpo for cremado, as cinzas, que são feitas de átomo, e já que o átomo não morre, é energia cambiante, as cinzas igualmente pensam. E, por esta via, não é demais assegurar que o tijolo sabe que está posto numa parede, e que ali permanecerá pela eternidade se não for alterado o seu estado de aparente inércia por evento natural ou insanidade humana.
Chegamos ao ponto, e aos tijolos do QG da PMERJ, e lá estão eles assentados, rebocados, pintados, sendo certo que o reboco e a tinta pensam; e, se pensam, sabem de tudo, pois ouvem e reagem no âmbito do seu mundo invisível: o mundo quântico. E agora os tijolos, a massa, e demais materiais, incluindo tudo que é matéria aparentemente imóvel, e mais a matéria móvel representada pelos corpos vivos, todos estão cientes de que o QG da PMERJ será demolido, não se sabendo ainda para onde vão os corpos vivos que lá habitam e labutam, nem qual será o destino de todo o resto. Sabem os homens e as pedras, todavia, que serão simultaneamente removidos por humanos que paradoxalmente pensam, e que supostamente se emocionam, valendo aqui imaginar que a pedra é capaz de se emocionar tanto quanto o ser humano. E, por saberem do fim próximo, homens e pedras se entristecem, pois as paredes do QG da PMERJ viram passar por ali gerações e mais gerações de capuchinhos e militares, sendo aquele local sagrado desde a origem. Sim, pois as orações naquele lugar ultrapassaram a casa dos milhões e ainda são muitas nos dias de hoje. Mas nada disso interessa aos pensantes, estes que se acham deuses e portanto capazes de destruir uma parede como se fora nada. Ou melhor, os deuses terrenos creem que basta uma lei formulada e algumas efêmeras moedas para justificar a destruição de muita história impregnada em paredes centenárias, e em janelas e portas, e em rebocos, e em pisos, e em tintas que efetivamente sabem que serão reduzidos a pó. E o pó receberá destinação incerta, e a história se espalhará num Universo que surgiu do nada a partir de um grão mínimo e denso. Enfim, um grão com tanta energia concentrada que explodiu e se fez matéria que se amplia rumo ao infinito desconhecido... E se sabemos que foi assim é porque a inferência do todo cósmico nos conduziu à partícula microcósmica: a partícula subatômica. Daí o prédio ser uma espécie de galáxia a nos orientar; e quando ela for sugada pelo “buraco negro” do poder político levará junto a sua história. E tal como as estrelas já sugadas não se sabe pra onde, o prédio também será sugado, e com ele desaparecerá a sua história. Daí se entender o tombamento de muitas obras físicas, algumas inclusive consideradas Patrimônio da Humanidade.
Ora bem, o prédio do QG da PMERJ não chega a tanto. Mas existe e deve continuar a existir fisicamente, e não apenas virtualmente, pois não sabemos quem existirá no futuro nem que valor terá aquela edificação resultante de muitos suores e orações. Por tudo isso, é razoável supor que as pedras do QG da PMERJ choram, assim como muitos que conviveram dentro dele, e forjaram momentos solenes e históricos em sua vida corporativa, igualmente choram. Mas também é certo que muitos humanos riem desse saudosismo, sem, no entanto, perceberem que não é por outro motivo que obras físicas são preservadas, eis que forjadas por entes pensantes do passado para deixar um legado ao futuro, assim como fizeram os Maias ou os Faraós, e não o fizeram senão para preservar a História, e não para destruí-la por meio da derrubada insana de sua remota materialização. Enfim, no caso do QG da PMERJ, não mais ali iremos, nós, os policiais militares, marchar, nem mais os cristãos estarão ali a orar. Pior é que muitas vezes marchamos a homenagear os que agora intentam destruir a História da PMERJ representada por seu principal aquartelamento, tal como as pirâmides representam a milenar História da Humanidade, esta que somente existe devido à iniciativa do homem em organizar a pedra de tal modo que, através dela, pudéssemos vislumbrar a inteligência remota. E é esta inteligência a mesma que se volta ao passado e ao início de tudo, ao big-bang, ou seja, ela parte do que é visto: as galáxias, as estrelas, os planetas, os satélites, os asteroides e o mundo quântico. E passa pelo pó cósmico ao qual o QG da PMERJ será acrescentado como mero pó de estrela. Pois, afinal, tudo é átomo, é energia, só que invisível; e, se não é visível, não existe... Ah, que bobagem! No final de todas as contas, o que os olhos não veem os corações não sentem, e muito menos sentirá alguma coisa o virtual “coração” que bate no peito da “corporação”; e, pelo visto, nem mais adianta apelar para a “oração”, restando-nos como possibilidade a “ação”, que na “corporação” também se materializa por sua mais importante edificação, a nossa “pirâmide”, o “universo” do nosso “corpo”, que é o QG da PMERJ.

domingo, 20 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

Sobre as UPPs



O Jornal O GLOBO de hoje, 13 de maio, abre mais um editorial sobre as UPPs. Já era tempo, até porque durante a semana o Complexo do Alemão recebeu mais uma UPP prevista na programação para aquela localidade identificada com sede do Comando Vermelho.
Como eu disse e repito, sou favorável ao modelo de policiamento batizado como Unidade de Polícia Pacificadora, embora nele eu não vislumbre mais que um grande Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO), modelo comum no interior do RJ. A UPP seria talvez uma companhia compactada devido ao comando de capitão. Aliás, a turbulência ambiental não mais permite à PMERJ manter-se fiel ao modelo estrutural semelhante ao do Exército Brasileiro, de modo que aos poucos a realidade vai eliminando a fantasia legal que insiste em se manter intacta por conta de apagados interesses com a Defesa Interna e a Defesa Territorial.
O que manda agora é a Defesa Pública, e a criminalidade crescente exige maior flexibilidade por parte dos organismos de segurança pública, não sendo mais possível a fidelidade aos modelos estruturais desenhados em conjuntura já superada, de tanto que atropelada por novos acontecimentos. As UPPs atendem a essa nova demanda e vêm funcionando a contento, segundo suas finalidades traçadas pelo comando da segurança pública. E, se para as comunidades atendidas, as UPPs são alvissareiras, para a PMERJ elas se tornam vitais, porque, apesar dos percalços eventuais, projetam uma boa imagem a se sobrepor à péssima decorrente de inevitáveis desvios de conduta, eis que são forjados na tessitura social e assim se enfiam na corporação alguns delinquentes em potencial e outros deliberadamente destinados a usar a PMERJ como instrumento de crime.
Sei que receberei críticas de alguns colegas que confundem a instituição PMERJ e seus objetivos com os fins pretendidos pelo atual governo. Não cuido, porém, de governos ou de políticos, mas do fato em si, que é real e imutável, e dificilmente desaparecerá como um capricho a mais, mero casuísmo eleitoral ou o que o valha. Interessa-me a UPP como modelo de intervenção da PMERJ que vem dando certo onde foi implantado, e quem determina o erro ou o acerto é a mídia, gostem ou não os que confundem política eleitoreira com política pública, esta que submete a PMERJ tanto como os demais organismos estatais com vistas ao bem-estar social como escopo maior. Sei também que não existe ente isolado no mundo, tudo se inter-relaciona como sistemas dentro de sistemas. Imaginar a ausência de interação e interdependência entre o ambiente e seus segmentos, e estes entre si, é viajar na maionese, é se estupidificar como regra, o que não é e jamais será meu caso.
Ora, igualmente sei que o perigo da UPP não é seu fracasso ao longo do tempo, mas a impossibilidade de atender a todas as demandas, já que são mais de mil favelas dominadas por tráfico ou milícia no RJ. Daí ser absolutamente impossível atender a essa demanda, que é real e não muito diferente será seu efeito nas comunidades contempladas e no seu entorno. Pois, se existe um modelo de policiamento que vem dando certo na PMERJ durante toda a sua existência, esse modelo é o do emprego de tropa concentrada no terreno, com suas frações comandadas e cobradas no específico para atender ao geral. Como exemplo desse modelo de patrulhamento que chamamos complementar ou extraordinário (não vejo muita ou nenhuma diferença na classificação) destacaria o policiamento do Maracanã em dia de casa cheia, ou do Sambódromo no Carnaval, onde podemos vislumbrar frações espalhadas, porém próximas umas das outras e integradas a um todo eventual.
Chego a este ponto e me reporto ao editorial para constatar o seguinte: as UPPs não mais recebem os exagerados louros midiáticos. O voto de confiança está vencido. Agora as UPPs têm de vencer por si mesmas, têm de se superar no tempo e no espaço de tal maneira que o único fracasso possível seja o da impossibilidade de expansão do modelo, que, na realidade, suga grandes efetivos e contrasta com o restante do policiamento ostensivo chamado normal ou geral e que se destina todo o RJ. Este policiamento normal é tradicionalmente atendido pelos batalhões, mas com carência inegável de efetivo e de meios materiais, o que torna rarefeito o patrulhamento diuturno – modelo, portanto, inverso ao das UPPs. Enfim, eis o desafio da PMERJ: manter as UPPs como prioridade e garantir otimamente a manutenção da ordem pública com o que restar...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

VIDA DE PM: VIDA DE CÃO


É corriqueiro dizer-se que quando um cão morde a perna dum transeunte não gera notícia; mas se o transeunte morder a perna dum cão, aí sim é notícia! E foi o que houve: o PM esborrifou spray de pimenta contra um cão que aparentemente avançava para lhe morder a perna. Por instinto, talvez (in dubio pro reo), o PM atingiu o cão, e o mundo está a desabar sobre ele. Eta hipocrisia! Tal fato, insípido, lembra outro tornado estrondoso durante a calamidade que assolou Nova Friburgo: uma senhora foi midiaticamente elevada à pomposa condição de heroína porque salvou um vira-lata de morrer afogado e declarou que o adotaria. Mas nenhuma nota saiu em favor de algum altruísta que tenha socorrido humanos e até adotado criança órfã resgatada da lama assassina dos seus pais. Tudo bem, esta última possibilidade é comum, não é notícia. Eta hipocrisia!...


Ora, o gesto do PM não se compara ao da mulher a ferozmente agredir um cãozinho menor que bola de futebol, batendo-lhe de vassoura e pontapeando-o em absurda crueldade. A cena se repetiu na tevê, rodopiou o mundo no You Tube, e, mesmo assim, talvez ninguém mais se lembre. Mas a do PM borrifando seu spray jamais alguém a esquecerá, as cobranças se avolumam, e muita gente hipócrita correrá atrás de um minuto de fama até ver o PM executado em praça pública em vista do seu gesto de se defender, pois o cão indubitavelmente avançava em sua direção com más intenções caninas.


Diferentemente do o cão que talvez tenha chorado (estava distante e não foi tão afetado) e por esta hora ele próprio não lembra, já passou o efeito do gás, essas gentes hipócritas correrão atrás do PM para lhe morder a perna como o cão que virtualmente adotaram. Pois as gentes hipócritas querem vê-lo literalmente ferrado. Na verdade, o cão passou a ser símbolo da ira que o povo tem da PM, hora boa de descarregá-la dissimulada numa boa causa. Porque essas gentes hipócritas não são defensoras do cão, mas antes são detratoras da farda policial ou militar, tanto faz, a farda é o símbolo da coerção que detestam neste país apologista da maconha e defensor de bandidos. Eta hipocrisia!


Fico imaginando a via crucis por que passará o PM. Porque a ira não cessará enquanto o PM não subir a colina e for crucificado sob os aplausos das gentes hipócritas que jamais criaram um cão nem têm em casa algum de pelúcia... Talvez (quem sabe?) o PM pudesse voltar ao cão e lhe pedir consternadas desculpas pelo gás que disparou para não ser mordido (com certeza o cão continua um vira-lata sem eira nem beira, rodopiando pela favela, tão fora de foco como o favelado que reclama, vende a notícia com sua participação gratuita e depois ninguém dele quer lembrar). Mas, claro, desta vez o PM deve deixar o cão se deliciar de sua perna, não valendo protegê-la para evitar o ferimento adiado. O PM deve oferecer a outra perna à mordida depois que o cão cumprir sua finalidade de morder pernas alheias. Talvez assim o PM seja finalmente perdoado e esquecido...

terça-feira, 8 de maio de 2012

A PMERJ e sua controvertida origem


É preciso coragem para crescer e tornar-se o que você realmente é.

(Edwad Estlin Cummings)



A criação das instituições PM



Em 13 de maio de 1809, D. João VI criou a Divisão Militar da Guarda Real da Polícia da Corte, atual PMDF, sediada em Brasília. Em 14 de abril de 1835, foi criada a Guarda Policial da Província do Rio de Janeiro, posteriormente designada PMRJ. Com a ida da Capital da República para Brasília, em 21 de abril de 1960, seguiu com ela a PMDF. Na mesma data foram criados o Estado da Guanabara e a PMEG. E, finalmente, mediante ato baixado em 15 de março de 1975, o regime militar fundiu o RJ com a GB, que se manteve Estado do Rio de Janeiro. Concomitantemente, foram extintas a PMEG e a PMRJ, dando lugar à PMERJ.

A Guerra do Paraguai


A Divisão Militar da Guarda Real de Polícia da Corte (PMDF) participou da Guerra do Paraguai formando o 31º de Voluntários da Pátria. A Guarda Policial da Província do Rio de Janeiro (PMRJ) participou da Guerra do Paraguai formando o 12º de Volutários da Pátria.


A realidade


Isto é coisa de treme-terra!

(frase predileta dos preconceituosos)


Neste ano de 2012, em 14 de abril, em fria solenidade comemorou-se mais um aniversário da extinta PMRJ. Se viva fosse, ela completaria 177 anos. Mas, na realidade, deveríamos prantear a sua morte ocorrida faz 37 anos. Enfim, não há mais o que comemorar na data de 14 de abril, mas tristemente lembrá-la em 15 de março...
Ora bem, desde a malsinada fusão predomina uma incômoda convivência intramuros da PMERJ entre “guanabarinos” (oficiais da extinta PMEG) e “treme-terras” (oficiais da extinta PMRJ). Esta tem sido a regra, embora haja exceções por conta de amizades pessoais neutralizando animosidades típicas de torcidas clubistas. O resto é fingimento...
Ressalvados os “bombeiros” apagando faíscas e fogueiras de ambos os lados (ou de todos os lados), a dissensão desde a fusão obrigava aos treme-terras sonhar com a isenção da futura oficialidade que nascia naquele novo âmbito institucional interno. Infelizmente, porém, não houve isenção alguma: a aversão dos “azulões” (PMEG) aos “treme-terras” ou “joões-de-barro” (PMRJ) penetrou o espírito dos novos da PMERJ e lá fez morada definitiva.
Em resposta ao latente preconceito, − muitas vezes tornado discriminação, − deve-se desde logo assegurar que os treme-terras (PMRJ) não sugeriram nenhuma fusão; e também os guanabarinos não ansiavam por ela, diga-se por amor à verdade. A fusão foi um ato de força que até hoje produz efeitos danosos nos quartéis militares estaduais. E o principal efeito desse dano é desconfiança e desunião em vista de qualquer fim institucional interno ou externo.
A dissensão de outrora e de agora é inegável. Talvez não seja insuportável devido ao bom senso das partes conflitantes ou porque a habilidade dos treme-terras lhes permitiu ocupar algumas vezes o comando da PMERJ, evitando a consolidação das más intenções dos guanabarinos no sentido de isolar e destruir treme-terras como se fossem bactérias malignas. Basta citar o manifesto interesse de alguns poderosos comandantes, chefes e diretores, num passado recente, em acabar com o HCPM/Niterói, − território sagrado de treme-terras, – transformando-o numa tal “Casa do Velho PM”, sem falar do seu sistemático esvaziamento em algumas épocas.
Malgrado o desastre, no início da fusão havia certo equilíbrio de forças, eis que os militares estaduais eram ainda fiscalizados pelo Exército Brasileiro, cujos representantes no comando-geral da nova PMERJ (se é que se pode chamar de nova a junção de coisas velhas) primavam pela impessoalidade no trato dos efetivos unificados como gado pé-duro num curral. Entretanto, a partir do primeiro governo Brizola (1983-1987) os egressos da antiga PMDF que permaneceram na PMEG assumiram o comando da corporação. E a turma nascida na PMEG e na PMERJ logo se abraçou aos “federais” na aversão aos treme-terras. Essa turma alardeava em mudez ou aos gritos que treme-terras nada mais eram que “herança maldita da fusão”. Daí às retaliações implícitas e explícitas foi um pulo...
Iniciou-se assim o conflito interno, resumindo-se na passagem do tempo a única esperança de paz da minoria treme-terra. Supunha esta que os oficiais formados na nova corporação, sem compromisso com dissidências anteriores, seriam imparciais quando alcançassem o posto de coronel e o comando-geral. Esse tempo era, porém, muito longo: eles, os novos, levariam anos para aplacar a histórica dissensão e até sepultá-la. Sim, os treme-terras criam nisso!... Ledo engano, os novos da PMERJ não aplacaram nada! Contaminados pelo cisma disseminado em salas de aula da Academia Dom João VI, muitos deles só fizeram aprofundar a ojeriza aos treme-terras.
Também por aversão à fusão, − e pelas razões aqui resumidas, − os treme-terras permanecem fiéis à sua história. Já aqueles oriundos da PMEG, nascida em 1960, abominam esta data, preferindo festejar 13 de maio (data de criação da PMDF, que se deslocou para Brasília levando-a nas algibeiras). Cabe-lhes, talvez, uma ponta de razão: havia na PMEG um pedaço da PMDF, porque alguns oficiais e praças exerceram o direito de retornar de Brasília.
A realidade é que no início a PMEG não era mais que “clonagem” da PMDF, razão de guanabarinos festejarem em caradura aniversário alheio, bem como os contaminados da PMERJ ainda o fazem, ou seja, exaltam 13 de maio, data que pertence à PMDF. Diferentemente deles, porém, o contingente treme-terra festeja em saudosismo a data de 14 de abril. Para tanto, nos dias de hoje, há a presença fingida (obrigatória) de oficiais nascidos na PMERJ. E assim a banda tocará até morrer o último treme-terra, sendo certo que ninguém mais se lembrará do Hino da PMRJ.
Com efeito, a PMRJ foi extinta, e só existe ou deveria existir como saudade. De uma forma ou de outra, porém, ela independe de abraçar feitos alheios. Por outro lado, a PMDF, criada em 1809, coexistiu com a PMRJ desde a criação desta, em 1835, sendo marco da união de ambas a Guerra do Paraguai (1865-1870), ocasião em que seus efetivos guerrearam como autênticos heróis. Enfim, a PMRJ sempre será o 12º Corpo de Voluntários da Pátria, assim como a PMDF sempre representará o 31º Corpo de Voluntários da Pátria, bem como o meu pai, falecido em 22 de fevereiro de 1957, sempre será meu pai, mas não vivo festejando a data aniversária dele e muito menos a sua morte. E ele continua vivo dentro de mim... Já a PMEG e a PMERJ nasceram sem pai nem mãe, são híbridas de origem...
Indo para Brasília a coirmã, em 1960, e ressalvados os federais que não viajaram para a Novacap, cá sobrou, na Velhacap, uma PMEG sem pai, mãe ou filho, sem heróis ou história, tal como a PMERJ, que nada pode contar anterior a 1975, o abominado ano de sua criação. Mas a oficialidade da PMERJ desde a fusão ignora a PMRJ. Erroneamente, acha-se resultante apenas da mudança de nomenclatura: “PMDF=PMEG=PMERJ”. Ou seja, uma aberrante falsa qualidade.
Nesse imbróglio, fica a PMERJ vazia de história. Porém, e como fazia a extinta PMEG, a atual instituição insiste em cultuar história pertencente à PMDF (compare o site da PMDF com o da PMERJ). E desdenha a PMRJ, e por esta é igualmente desdenhada, e, gostem ou não, é assim mesmo que funciona; com uma diferença: a PMRJ não precisa inventar história... Porque, tal como a PMDF, ela efetivamente a possui.
Sim, a PMRJ e a PMDF são lídimas proprietárias de história reais e imutáveis. Já a PMEG e a PMERJ são proprietárias de quê?... De nada! São usurpadoras!... Pois assim nasceram a PMEG e a PMERJ, frutos de teratogenia decorrente de dois estupros: um em 1960 e outro em 1975... Tal deformidade institucional talvez explique o fato de oficiais formados após a fusão intentarem ser o que não são: “herdeiros da PMDF-PMEG”. Daí cultuarem 13 de maio como data de criação da PMERJ. Parodiando Schopenhauer, em adaptação de sua “peruca do erudito puro”, essa oficialidade usa cabelo alheio para tentar ocultar uma inocultável careca...
Mas, por que será que alguns importantes nomes dessa nova oficialidade demonstram tanta esquivança pela PMRJ?... Vivem pelos corredores se referindo em viés aos treme-terras como se estes fossem intrusos. Fazem-no, sim, porém não lhes podem negar o direito de cultuar sua história, que não foi forjada por coadjuvantes, mas protagonizada por heróis desde 1835 até a sua extinção, em 15 de março de 1975. Com efeito, a indignação saudosista procede, não é invenção, mas reação aos preconceituosos que arrotam despeito por nascerem deformados. Porque eles, sim, abominam a paternidade original, que, no caso deles, não é o início nem o fim, mas um incômodo meio-termo...
Ora, não se entende por que essa nova safra não formou ninho próprio para gerar filhotes a partir do respeito às corporações extintas, sendo certo que a ida da PMDF para Brasília e o fim da PMEG nada têm a ver com treme-terras. Aliás, nem com federais ou guanabarinos, que, no fim de contas, não inventaram o Estado da Guanabara nem Brasília e muito menos a fusão. Portanto, que se manquem os preconceituosos da PMERJ! Que respeitem a corporação treme-terra! Gostem ou não, os desdenhosos devem manter as “perucas” até o fim de suas vidas; ou então que inventem remédio capilar assumindo a natalidade de 1975! É o que lhes resta fazer: assumir a “careca”.
Claro que muitos dos gerados no ventre da PMERJ (vítimas do segundo estupro da fusão) abominarão esta manifestação, tachando-a de tola, recalque treme-terra etc. Pode ser... Mas foi assim a história e é assim que ela se desenrola, e eles e elas terão de assumir que não apreciam treme-terras por dupla imitação: dos vazios de história da PMEG (nascida do primeiro estupro: criação da GB) e dos federais (PMDF), que, ao retornarem de Brasília à PMEG, produziram a primeira dissensão entre eles próprios e os guanabarinos. Isto antes da fusão, o que não é problema de treme-terras, estes que enfrentam a aversão de ambos, assim como sofrem o desdém de alguns novos da PMERJ que não desejam coisas boas na velha província fluminense, como, por exemplo, o HCPM/Niterói e o Colégio da PM. São, portanto, todos contra um, com ressalva de pouquíssimas exceções...
Ora bolas!... Não seria mais coerente fixar a data de 15 de março de 1975 como a da criação da PMERJ, para lembrar que todos os “com história” e “sem história” são vítimas de estupro político? Não seria melhor que todos se colocassem no mesmo saco e se olhassem com mais respeito?... Não seria mais conveniente abrir o diálogo?... Não seria óbvio respeitar o passado para forjar o futuro?... Afinal, até quando o micuim permanecerá coçando tantos narizes empinados?... Não seria útil aos oficiais da PMERJ alimentarem a coragem de ser o que realmente são assumindo principalmente o que não são?... Sim, este é o desabafo dum treme-terra que não engole as ironias de quando em quando expelidas do boquirroto de importantes agaloados usurpadores de feitos e feitios alheios.
Basta de preconceito dessas mentes ocas do andar de cima ao perceberem a histórica cabeleira dos treme-terras, esbranquiçada, sim, porém firme, eis que cultivada em honra de lutas passadas e recentes. Melhor seria que os oficiais recém-formados, principalmente, e os cadetes, reavaliassem esta deformada cultura institucional e finalmente identificassem um único valor corporativo: o da nova PMERJ.
Melhor seria somar histórias reais tornando-as uma só história e renovando-a em originalidade, em vez se continuar a absorver cultura cunhada em desavenças; melhor seria desvelar uma identidade própria e criar um mundo novo intramuros dos quartéis. Afinal, depois de abafado o recalque de federais, guanabarinos, treme-terras e usurpadores de si mesmos, qualquer data será boa para todos aniversariarem em fraternidade corporativa...
Neste ponto, e por questão de justiça, ressalto positivamente o Movimento dos “Coronéis Barbonos”, grupo formado por turma posterior à fusão (1976-1978), que tentou pela primeira vez assumir identidade própria, inclusive influenciando na escolha de um comandante-geral saído dessa primeira leva de posto máximo após a fusão: o ilustre Coronel PM Ubiratan de Oliveira Ângelo. Talvez o movimento entrasse para a história como um marco indelével se não esbarrasse em muitos abismos cavados anteriormente e ainda intransponíveis. Não sei o que faltou. Talvez (quem sabe?) faltasse uma tese capaz de garantir sua imediata legitimidade perante a tropa de oficiais e praças...
Sei, porém, que alguns egressos da PMEG e da PMRJ muito atrapalharam nos bastidores a luta franca do novo grupo em busca de representatividade isenta. Mas não importa, pelo menos hoje se pode dizer que pela primeira vez os novatos da PMERJ se assumiram, embora à custa do sacrifício de praticamente todos os “Coronéis Barbonos”. Eles tiveram suas carreiras encerradas a muque depois de amargar traições inesperadas. Não sei, todavia, se o movimento feneceu. Anseio sinceramente que não, pois, sob o aspecto histórico, o Movimento dos “Coronéis Barbonos”, que motivou a criação dos “40 da Evaristo”, numa alusão também ao QG da PMERJ, tinha tudo para vencer. Tivesse o movimento ido adiante, teríamos o renascimento da PMERJ. Não mais a consequente de estupro, mas a do redesenho de um destino corporativo independente e altaneiro, sem, entretanto, desmerecer os integrantes das corporações extintas, todos praticamente na inatividade, mas vivos e participativos no âmbito de suas verdades ou ilusões.
Quem sabe então os “Coronéis Barbonos” convoquem novamente os “40 da Evaristo” e todos mais que se agradaram do movimento para traçar uma nova rota de reconstrução da história da PMERJ a partir de 1975, ano que é, na verdade, apenas um marco no calendário?... Mas se, em vez da idéia de início ou fim de duas corporações, uma data fosse iluminada pelos holofotes do nascimento de uma nova PMERJ, sem mais meio-termo, todos nós, – federais, guanabarinos e treme-terras, – todos nós teríamos com quê e com quem nos orgulhar.
Eis como descansaríamos em paz: sabedores de que os novos finalmente se desvencilharam do passado e da subserviência como a seta se desvencilha do arco depois de disparada ao alvo. Se a seta não o acertou na primeira tentativa, que se dispare outra, mesmo a contragosto daqueles buropatas que preferem o servilismo e a “buropatia” ao amor corporativo conquistado a sangue, suor e lágrimas por seus antepassados.
Cá entre nós, só os “Coronéis Barbonos” (ativos e inativos) e os “40 da Evaristo” (ou algo que fisicamente os representem) estão aptos a liderar a reconstrução de uma nova PMERJ (quem outro Seminário sobre a polícia que nós queremos?). Quanto a nós, federais, guanabarinos e treme-terras, só almejamos respeito e consideração, como se fôssemos um Conselho Tribal diante do qual os jovens guerreiros se curvam em consideração à sabedoria dos velhos conselheiros, estes que, porém, não almejam o poder, mas a preservação da PMERJ fundamentada no amor corporativo unificado.
Urge, sim, refazer a história, para unir a PMERJ contra seus detratores que hoje vendem quartéis e anunciam a disposição de “acabar com o conceito de aquartelamento”. Essas vozes políticas, casuais, efêmeras, diferentemente do que aparentam, não são isoladas e podem eternizar suas loucuras. No fim de contas, elas fazem parte de um contexto ideológico defendido por extremistas que odeiam indistintamente os militares estaduais, sejam eles “Azulões”, “Treme-Terra”, “Federais”, “Guanabarinos” ou “Novatos”. Eles não almejam outra coisa a não ser destruir as bases históricas de corporações que se uniram contra a vontade, mas que trazem do passado muito sangue derramado em guerras, revoluções e combate ao crime. E os militares estaduais não podem fugir à luta, até que possam todos exclamar:



“Juntos somos fortes!”